Por Uillians Mota – HUB Conecta Empresarial
A digitalização tornou as operações logísticas mais rápidas, conectadas e eficientes. Mas também criou uma nova dependência: quando a tecnologia fica indisponível, muitas empresas simplesmente não sabem como continuar operando.
Imagine o início de mais um dia em uma transportadora.
Veículos aguardando liberação.
Pedidos para expedir.
Clientes esperando informações.
Motoristas entrando em rota.
Equipes acompanhando indicadores.
Então, de repente, o sistema fica indisponível.
Sem acesso ao TMS.
Sem WMS.
Sem rastreamento.
Sem informações consolidadas sobre pedidos, rotas ou entregas.
A pergunta deixa de ser tecnológica e passa a ser operacional:
Sua empresa consegue continuar funcionando?
Essa é uma discussão que ganhou ainda mais relevância após o recente ataque cibernético envolvendo a CEVA Logistics.
Mas o ponto mais importante não é analisar apenas o que aconteceu com uma grande empresa global.
É entender o alerta que esse episódio deixa para milhares de transportadoras, operadores logísticos, centros de distribuição e empresas que dependem cada vez mais da tecnologia para funcionar.
A digitalização trouxe enormes ganhos para a logística.
Ao mesmo tempo, criou um novo risco:
a dependência operacional dos sistemas.
O caso CEVA acende um alerta para toda a logística
No fim de julho de 2026, a CEVA Logistics foi atingida por um ataque cibernético que afetou parte de suas operações na Europa.
Informações divulgadas por clientes da companhia indicaram impactos em centros logísticos e possível comprometimento de dados relacionados a entregas.
O episódio também provocou atrasos e interrupções em algumas operações.
Mais do que discutir especificamente o ataque, o caso levanta uma pergunta importante para todo gestor de logística:
quanto da sua operação depende hoje de sistemas digitais para funcionar?
Provavelmente muito mais do que há alguns anos.
TMS, WMS, ERP, aplicativos de motoristas, sistemas de rastreamento, roteirizadores, integrações com embarcadores, plataformas de atendimento e dashboards passaram a fazer parte da infraestrutura básica de uma operação moderna.
Isso trouxe eficiência.
Mas também criou dependência.
A logística se tornou uma operação digital
Durante muito tempo, uma transportadora conseguia funcionar utilizando telefone, documentos físicos, planilhas e conhecimento operacional das equipes.
Hoje, isso mudou.
Grande parte da operação passa por algum sistema.
O TMS pode controlar informações como:
- cargas;
- documentos;
- veículos;
- motoristas;
- rotas;
- ocorrências;
- entregas;
- faturamento.
O WMS organiza boa parte da dinâmica dentro de centros de distribuição e armazéns.
Sistemas de rastreamento mostram onde os veículos estão.
Aplicativos registram entregas e ocorrências.
Dashboards consolidam indicadores.
Integrações conectam transportadoras, embarcadores, marketplaces e clientes.
A tecnologia passou a funcionar como uma espécie de sistema nervoso da operação logística.
Quando tudo funciona, a empresa ganha produtividade, velocidade e controle.
O problema aparece quando esse ecossistema deixa de funcionar.
TMS e WMS se tornaram infraestrutura crítica
É comum empresas tratarem TMS e WMS simplesmente como softwares de gestão.
Na prática, eles já ocupam uma posição muito mais importante.
Em muitas operações, são infraestrutura crítica.
Faça um exercício simples.
Imagine sua empresa amanhã às 8 horas da manhã sem acesso ao TMS.
Quanto tempo a operação conseguiria funcionar normalmente?
Uma hora?
Quatro horas?
Um dia?
Agora imagine ficar 24 ou 48 horas sem acesso aos principais sistemas.
Como seriam liberadas as cargas?
Como os motoristas receberiam suas rotas?
Como as entregas seriam registradas?
Como as ocorrências seriam tratadas?
Como os clientes seriam informados?
Como os gestores acompanhariam a operação?
É nesse momento que descobrimos a diferença entre uma empresa que apenas possui tecnologia e uma empresa que possui resiliência operacional.
Segurança digital também é segurança operacional
Durante muito tempo, cibersegurança foi tratada principalmente como responsabilidade da área de Tecnologia da Informação.
Essa visão precisa evoluir.
Quando um incidente digital consegue interromper expedições, entregas, movimentações ou atendimento ao cliente, o problema deixou de ser exclusivamente de TI.
Ele se tornou um problema de negócio.
Na logística, isso é ainda mais relevante.
As empresas lidam diariamente com informações relacionadas a clientes, endereços, pedidos, mercadorias, motoristas, rotas, fornecedores e parceiros comerciais.
Por isso, proteger informações e sistemas precisa fazer parte da gestão de riscos da operação.
Isso envolve tecnologia, evidentemente.
Mas também envolve processos.
Controle de acessos.
Políticas de segurança.
Backups.
Gestão de fornecedores.
Atualizações.
Proteção de dados.
Treinamento das pessoas.
E principalmente:
capacidade de continuar operando diante de uma indisponibilidade.
Ter backup não significa ter um plano de contingência
Esse talvez seja um dos maiores equívocos quando falamos sobre continuidade operacional.
Uma empresa pode possuir backups de seus dados e ainda assim não estar preparada para uma interrupção.
Backup responde principalmente à pergunta:
“Como recuperaremos nossas informações?”
Um plano de contingência precisa responder outra:
“Como continuaremos operando enquanto o sistema não voltar?”
São problemas diferentes.
Uma operação preparada precisa definir previamente, por exemplo:
- quais processos são críticos;
- quais atividades precisam continuar imediatamente;
- quais controles manuais poderão ser utilizados;
- onde estarão disponíveis as informações essenciais;
- quem poderá autorizar decisões emergenciais;
- como motoristas e equipes serão orientados;
- como clientes serão comunicados;
- como os registros feitos durante a contingência voltarão posteriormente aos sistemas.
Improvisar tudo isso durante uma crise aumenta significativamente o risco operacional.
O momento de decidir como agir quando o sistema parar é antes de o sistema parar.
O fator humano continua sendo decisivo
Existe ainda outro ponto frequentemente ignorado.
Uma empresa pode investir em excelentes sistemas, infraestrutura tecnológica, redundância e segurança.
Mas, quando uma crise acontece, são pessoas que precisam tomar decisões.
Por isso, continuidade operacional também depende de treinamento.
A equipe precisa saber:
quem acionar;
o que priorizar;
quais processos executar;
como registrar informações;
como comunicar clientes;
quando escalar decisões;
e como trabalhar temporariamente fora do fluxo normal.
Não basta existir um documento chamado “Plano de Contingência” armazenado em alguma pasta da empresa.
O plano precisa ser conhecido.
Precisa ser treinado.
E, principalmente, precisa ser testado.
Simulações periódicas podem revelar falhas que dificilmente apareceriam apenas na elaboração do documento.
Uma pergunta simples pode gerar um excelente exercício:
“A partir deste momento, nosso TMS ficará indisponível pelas próximas seis horas. O que fazemos?”
A resposta da equipe mostrará muito sobre o nível de preparação da operação.
Checklist rápido: sua operação está preparada?
Antes de considerar sua empresa preparada para uma indisponibilidade tecnológica, gestores deveriam conseguir responder com clareza às perguntas abaixo:
- Existe um plano formal para indisponibilidade do TMS ou WMS?
- Os processos críticos da operação estão mapeados?
- Existe uma forma alternativa de consultar informações essenciais?
- A empresa possui controles manuais previamente definidos?
- As responsabilidades durante uma contingência estão claras?
- Existe uma lista de contatos críticos disponível fora dos sistemas?
- Há um protocolo para comunicação com clientes?
- A equipe sabe quem possui autoridade para tomar decisões emergenciais?
- Existe procedimento para registrar manualmente as movimentações realizadas durante a indisponibilidade?
- Está definido como essas informações serão reconciliadas quando os sistemas retornarem?
- Os backups são realizados e testados?
- A empresa já realizou alguma simulação de indisponibilidade dos sistemas?
Se várias dessas respostas forem “não”, existe um risco que talvez ainda não esteja visível no dia a dia.
Mas ele existe.
A próxima crise pode não começar na estrada
Gestores logísticos estão acostumados a administrar riscos.
Acidentes.
Atrasos.
Problemas com veículos.
Chuvas.
Bloqueios.
Falta de capacidade.
Falhas de fornecedores.
Oscilações de demanda.
Mas a digitalização adicionou uma nova categoria à gestão de riscos operacionais.
A próxima grande interrupção de uma transportadora pode não começar na estrada.
Pode começar em um servidor.
Em uma integração.
Em uma credencial comprometida.
Em um sistema indisponível.
Ou em um ataque digital.
A tecnologia continuará avançando — e isso é positivo.
A solução não é voltar para operações manuais.
É exatamente o contrário.
Precisamos continuar digitalizando a logística.
Mas precisamos fazer isso construindo operações capazes de permanecer funcionando mesmo quando parte dessa tecnologia falhar.
Digitalização sem contingência cria eficiência em dias normais e vulnerabilidade nos dias críticos.
Sobre o HUB Conecta Empresarial
No HUB Conecta Empresarial, acreditamos que excelência operacional não é construída apenas com tecnologia.
Ela nasce da combinação entre processos estruturados, pessoas preparadas, liderança e capacidade de execução.
Por isso, nossos conteúdos sobre logística e performance buscam transformar acontecimentos do mercado em aprendizados práticos para empresários, gestores e líderes operacionais.
Mais do que reagir aos problemas, empresas precisam desenvolver capacidade para antecipá-los, preparar suas equipes e construir operações mais resilientes.
Porque uma operação verdadeiramente preparada não é aquela em que nada dá errado.
É aquela que sabe exatamente o que fazer quando algo dá errado.




